outubro 22, 2004

Festa do Cinema Francês #2

Sex is Comedy (2002) & Anatomie de L’Enfer (2004), Catherine Breillat
Notre Musique (2004), Jean-Luc Godard
Sex is Comedy e Notre Musique, de Godard, proporcionaram-me os melhores momentos da quinta edição da Festa do Cinema Francês.
Breillat criou um belo filme sobre cinema e sexo. O filme desenvolve-se em volta de uma cena difícil de filmar – um casal de adolescentes a fazerem amor pela primeira vez – e através dos sentimentos ambíguos e tensões que se gerem entre as personagens – tanto as de Sex is Comedy como as desse filme imaginário. Tudo isto seria perfeitamente banal se a realizadora – a do filme imaginário – não fosse o centro e o maior exemplo dessa ambiguidade, acusando-a nos momentos que não nos são mostrados, isto é, o que se passou antes do filme, no momento em que escolheu aqueles actores para desempenharem aquele papel. Esta indefinição que depois e reflectida no seu relacionamento com a sua equipa gera uma imensa falta de auto-estima – pouco lamechas e está tão bem filmada que por vezes passa ingenuamente despercebida -, preparando-nos para a derradeira cena, onde os limites da coordenação da realizadora são ultrapassados, conduzindo todos os espectadores – os de dentro e fora do filme – à inércia ou a um desejo de não-acção. O final dá uma sensação única de “trabalho feito” e isso traduz-se na satisfação, alívio e atonia no espectador. Não é isso que esperamos de todos os finais, mesmo nos filmes que são feitos só para isso?
Anatomie de L’Enfer parece falhar na intenção de filmar a intimidade de uma mulher e, em segundo e terceiro plano, a de um homem e a de um homem e de uma mulher. Há um voyeurismo que toma conta do filme, suportado pela narração de um suposto narrador que completa os sentimentos das personagens, complementa aquilo que Breillat não conseguiu filmar. As imagens contém uma força não correspondida por não estarem dentro de uma coisa nem outra nem nos limites da intimidade ou do voyeurismo, mas num não lugar que insiste em ser narrado, como se os corpos filmados não existissem. As personagens, os actores, o cenário, a câmara , o filme, tudo morre nesta percepção. Qualquer conteúdo perde-se nas imagens e elas tornam-se meramente descritivas, repetitivas, extremamente aborrecidas. São “coisas” sem lugar, “algo” sem presença, um filme que não existe. A realizadora falhou não em adaptar o seu livro - Pornocratie - mas ao escolher em adaptá-lo. Há coisas, como abrir um livro durante 80 minutos, que não têm lugar no cinema.
Sobre Notre Musique tenho pouco a dizer, posso escrever “sublime”, mas não lhe serve. Apenas posso recomendá-lo veementemente.