setembro 11, 2004

A Vida Inteira (I)

Eva não ouve música. Faz muito bem. Assim posso ouvi-la inalar fumo. Posso misturar-me nele e dar uma voltinha dentro dela, mas não posso demorar-me. Ainda por cima, não há nada mais desagradável que uma paisagem de brônquios. Os pulmões são bonitos - nunca percebi porque é que as pessoas não os escolheram como lugar simbólico dos sentimentos, em vez da banalidade do coração. Os pulmões abrem e fecham, como se estivessem debaixo de água, esponjas do fundo do mar. O coração é apenas uma bomba. Como se pode preferir uma coisa que "bate", que não bate coisíssima nenhuma, a uma coisa que respira?
(...)
Não posso distrair-me. Isto é, não me é possível. Quem me dera ser capaz de distrair-me de vez em quando. Mas o que caracteriza uma alma é a constância da nossa atenção. Os estúpidos dos índios julgam que nós vamos passear enquanto eles dormem e que morrem se alguém os acordar de repente. Ou isso ou inventaram a grande desculpa da humanidade para não serem incomodados durante o sono.
Na verdade, só passeamos quando as pessoas estão em coma, o que é raro, infelizmente. Necessitamos de um mínimo de actividade cerebral. É por isso que o coração é uma treta. Raio de bomba, sempre a bater, mesmo quando não se passa nada lá em cima. Como é que se pode ser poético acerca dele? Faz algum sentido dizer "Estás sempre no meu coração", se a cabeça não é capaz de dizer "Está?", quanto mais articular um pensamento inteiro?


Miguel Esteves Cardoso