setembro 24, 2004

Le Temps du Loup, Michael Haneke (2003)

Não considero que o cinema de Haneke seja difícil de compreender – de ver, para alguns, talvez -, é sim impossível caracterizá-lo em termos de gostar/não-gostar ou de arranjar adjectivos “certos” que o definam ou descrevam sem cair no exagero - em extremos - ou que o inviabilizem em caminhos desgostosos. Le Temps du Loup não é novidade e peca por vezes pela repetição de ideias de outros dos seus filmes, no entanto, existem alguns aspectos a realçar.

Não há uma história, mas factos. Factos que nos são dados de forma indirecta e com os menores dos pormenores. Ao longo do filme nunca descobrimos as causas daquele momento apocalíptico e só podemos ter certezas de algumas das suas consequências. Não que isso importe, porque o que conta é a realidade e superficialidade do comportamento humano num momento de aperto, contenção e desespero. A “história” é um cenário sem cor que podia assumir milhares de formas – como muitos dos filmes de ficção científica que já abordaram o tema – e ali assume uma pouco redundante e sem grandes elementos de distracção.

Não é necessário saber causas para entrar em Le Temps du Loup – o não-saber faz parte da compreensão -, mas uma vez que são dados certos elementos é essencial, não aprofundando, dar outros mais claros que anulem o esforço intelectual de perceber o que se passou antes do filme. Ou seja, alguns dos elementos do cenário tornam-se supérfluos na abordagem de Haneke, encaminhando o espectador para um clima de maior suspeita, expectativa e constante distracção.

Minimizada a história, não existem pessoas/personagens nesta obra, mas comportamentos. Assim, os actores são meros utensílios das cenas, não existindo grande espaço para eles. E é primoroso como Haneke nos faz esquecer os actores, os nomes, as formas, as interpretações, ocupando a tela de sombras indistintas às quais atribuímos X comportamento. Ao longo do filme, só assim os vamos reconhecendo.

Destaco os excelentes planos minimais do filme e a rigorosa fotografia. Num deles, durante a noite, apenas vemos o escuro de um enorme campo vazio e uma pequena chama ao fundo. Todo o medo/suspense dessa cena é comportado pela audição, são os ouvidos que captam o lume, que o distinguem e não os olhos. É um dos instantes mais plenos do cinema dos últimos anos.

setembro 11, 2004

A Vida Inteira (I)

Eva não ouve música. Faz muito bem. Assim posso ouvi-la inalar fumo. Posso misturar-me nele e dar uma voltinha dentro dela, mas não posso demorar-me. Ainda por cima, não há nada mais desagradável que uma paisagem de brônquios. Os pulmões são bonitos - nunca percebi porque é que as pessoas não os escolheram como lugar simbólico dos sentimentos, em vez da banalidade do coração. Os pulmões abrem e fecham, como se estivessem debaixo de água, esponjas do fundo do mar. O coração é apenas uma bomba. Como se pode preferir uma coisa que "bate", que não bate coisíssima nenhuma, a uma coisa que respira?
(...)
Não posso distrair-me. Isto é, não me é possível. Quem me dera ser capaz de distrair-me de vez em quando. Mas o que caracteriza uma alma é a constância da nossa atenção. Os estúpidos dos índios julgam que nós vamos passear enquanto eles dormem e que morrem se alguém os acordar de repente. Ou isso ou inventaram a grande desculpa da humanidade para não serem incomodados durante o sono.
Na verdade, só passeamos quando as pessoas estão em coma, o que é raro, infelizmente. Necessitamos de um mínimo de actividade cerebral. É por isso que o coração é uma treta. Raio de bomba, sempre a bater, mesmo quando não se passa nada lá em cima. Como é que se pode ser poético acerca dele? Faz algum sentido dizer "Estás sempre no meu coração", se a cabeça não é capaz de dizer "Está?", quanto mais articular um pensamento inteiro?


Miguel Esteves Cardoso