agosto 04, 2004

Não te deixarei sorrir

Recentemente esteve em cena no Teatro Nacional D. Maria II uma peça conotada a Bergman e Kierkegaard. Encenada por Nuno Cardoso, Sorrisos de Bergman limitava-se, ao contrário da informação que li, tanto a proveniente dos órgãos de comunicação como do próprio cartaz / teatro, a cena e meia das seis Cenas da Vida Conjugal / Cenas de Um Casamento de Bergman. Não que isto seja necessariamente mau – porque o texto de Bergman é fabuloso – e embora alguns temas estejam presentes nalguns filmes, essa conotação é absolutamente desnecessária quando tudo provém da mesma fonte.

Não vou muito ao teatro por causa de experiências como esta. Se por um lado foi interessante verificar como uma das seis cenas pode viver isolada das restantes – com o apoio de um pequeno flashback – a sua existência contraria a natureza do texto - a duas ou três cenas anteriores -, por outro o isolamento reinventa uma peça demasiado previsível e influente para uma péssima prestação dos actores. Resumir as personagens – Mariana e João – àquilo é destruir Bergman. Numa cena isolada não se pode viver as duas faces das personagens, perceber a carga dramática e humorística que carregam, aprender a amá-las e a ser vencido pela pena, esquecer a lucidez e a previsibilidade e pensarmos mais nas palavras que nos actos. Não existe espaço para tanto numa só das seis cenas de Bergman, recria-se antes um oposto de intenções momentâneas, pouco representativas e sem qualquer carga simbólica.

É realmente triste recriar Bergman e abandoná-lo à previsibilidade e ao lugar comum.