julho 13, 2004

"Survival" at Cinemateca

Visionar cinema mudo numa sala de cinema, sem acompanhamento musical, é uma experiência tão interessante como desconfortável. Interessante, quanto mais não seja, pela falta de hábito, pela novidade – se for uma primeira vez -, pela adaptação à circunstância e pela quantidade de situações – na sua maioria sonoras – que se promovem ao longo do filme. O silêncio que engole a sala é de uma qualidade inexplicável, para muitos ou nalgumas ocasiões, pode ser tão mau como aqueles “desconfortáveis” numa conversa a dois. Qualquer movimento do espectador é ouvido pelos restantes, qualquer respiração “anormal” é alvo de risadas e desconfiança e o simples sussurrar para o companheiro do lado – para acordar, alienar o desconforto – é ouvido ao pormenor de uma ponta à outra da sala. É fácil a distracção com tantos ruídos estomacais, narizes ronronantes e a sensação que se acumula de que cada movimento de pernas vai causar um estrondo imenso. Há sempre uma pessoa que acaba por adormecer nos cinco primeiros minutos do filme – hoje, durante Lumière – Montage Cannes, o meu vizinho do lado não chegou à terceira curta (cada uma tinha sensivelmente 52 segundos) -, outra que pensa alto de olhos fechados e sai-lhe um “hmmm” alarmante num acordar assustado, outra que sai mal se apercebe onde se meteu e algumas que após oscilações cranianas e suspiros de desabafo abandonam o filme a dez minutos do final. Quais soldados a tombar quando a guerra já está ganha.