julho 09, 2004

Shrek 2 (2004)

Há poucos anos atrás, alguém referia que animação feita por computador dificilmente iria suplantar a que é sustentada pelo desenho. Curiosamente, na antiga escola o traço tem-se tornado irreconhecível e estúdios como a Pixar ou a DreamWorks têm imputado uma estética segura e uma fórmula, curiosamente, imbatível. Há uns anos, portanto, comparava-se Blood: The Last Vampire, uma produção japonesa, com Final Fantasy, título duma famosíssima série de videojogos da nipónica Squaresoft, mas realizado em solo norte-americano. Blood vencia aos pontos porque o traço era fiel à acção. No entanto, era uma média-metragem experimental, uma sequência de acção cuja técnica, pelo menos que eu tenha conhecimento, até ao momento não foi mais desenvolvida – espera-se por Ghost in the Shell II, que recebeu alguns aplausos no último Festival de Cannes. Final Fantasy era um mau filme, visualmente inspirado mas pouco inspirador, viciado em vazios, tanto entre as personagens como com o próprio argumento. Na mesma altura estreava Shrek. Não foi o primeiro filme do género que vi, mas foi o primeiro que realmente gostei. Entretanto, já houve Monsters Inc., o sobrevalorizado, mas não menos bom por isso, Finding Nemo e outros tantos que não são para aqui chamados.
É curioso verificar que, actualmente, estas propostas de animação por computador são muito mais entusiasmantes que a “antiga” escola da Disney. Indo por partes.

1) Esquecendo a afirmação e a comparação inicial, este tipo de cinema revitalizou o cinema infantil e mostrou-o a alguns adultos. É um cinema pouco lamechas que apenas procura o entretenimento e a piada contemplativa. Shrek (I e II) é um bom exemplo. Obra inspirada na reconstrução do conto de fadas, subvertendo a sua organização e moral, encontrando-se numa simplicidade narrativa, sem óbvias distinções do bem e do mal nem qualquer procura insana disso. Existem bons e maus, mas ninguém lhes aponta o dedo. Ao contrário das últimas obras da Disney, esta apodera-se de uma linguagem actual – tanto verbal como corporal e visual – que – em princípio – qualquer espectador reconhece, não entrando assim no território perigoso da auto-referência. Às crianças escapa muita coisa, mas não lhes foge uma história bem contada e umas quantas personagens para recordar pelo sorriso.

2) Embora neste tipo de cinema – a comédia fantástica para o grande público – tenha suplantado a “velha” animação, no restante a animação feita totalmente em computador não tem tido grande sucesso. Isso explica-se pela facilidade em recriar corpos e movimentos humorísticos e na dificuldade em expressar pela máquina sentimentos ou acções mais complexas, que exigem mais realidade e menos imediatez. Ou seja, o próprio atraso técnico favorece a “nova” animação (ou nova comédia, vamos lá).

3) Visualmente muito agradáveis, com cores que não lembram ao diabo, estes filmes conseguem também reter pelo argumento simples e facilidade em iludir o espectador do que vê. É fácil, durante o filme, apreciar o romance de Shrek e Fiona como o mais belo de sempre. Depois, torna-se um pouco custoso admiti-lo, até porque é bastante difícil de concebê-lo como tal. É arte, se me é permitido o termo, que só fala em e para aqueles noventa minutos. Fora daí, os julgamentos têm mesmo de ser outros.

4) Era difícil ser melhor que o primeiro, porque o efeito surpresa estava estragado. No entanto, Shrek II continua uma fórmula deliciosa, para a qual só os olhos e os gargalhadas conseguem encontrar elogios. Vale o que vale, mas aqui isso já vale muito.