junho 24, 2004

A Verdade

Na outra ponta da cidade, Nicole faz pela enésima vez o seu ‘show’ de ‘striptease’ ao som de uma balada romântica russa. Enquanto tira a roupa a um ritmo conta-gotas, vai lançando olhares insinuantes para a plateia. Os poucos homens sentados nas mesas do Nocturno 76 seguem com atenção as suas acrobacias na barra de metal e no fim batem palmas com entusiasmo. Ela sai do palco com um pudor repentino, tapando os seios generosos com as mãos. O 'disc--jockey' volta a pôr os êxitos dos anos 80 no gira-discos.

“Aqui estamos preparadíssimos para o Euro”, dispara o senhor Oliveira. Se a procura aumentar nos dias do campeonato, o gerente da casa que abriu as portas em 1976 espera contratar mais uma ou duas raparigas. “O meu ‘staff’ sabe pelo menos três línguas estrangeiras e está à--vontade para falar com estrangeiros de diferentes nacionalidades. Afinal, as casas de ‘striptease’ podem também servir para incrementar o turismo em Portugal.” O cinquentão revela que a maioria das 16 raparigas que trabalham no Nocturno 76, são provenientes do Leste da Europa e tinham um curso superior, antes de saltarem para o Ocidente. “Às vezes pergunto-lhes o que andam aqui a fazer ”

É o caso de Nicole, que voltara a envergar o seu vestido preto demasiado justo para o seu 1,80 m de altura e fuma um cigarro Cartier. Parece uma loira fatal dos filmes policiais. “Na Letónia, tinha curso mas não tinha emprego. Há três anos decidi arriscar e emigrei”, explica a ex-estudante num fluente português. A rapariga loira de 26 anos, que domina também o idioma inglês e o alemão, trabalhou por toda a Europa em casas de alterne.

“A regra é não estar muito tempo no mesmo local.” Em Portugal, usou a mesma táctica e andou a saltar de boîtes. Já esteve no San-Payo. Hoje, com o dinheiro que ganha por noite nem pensa regressar à terra-natal: “Já esqueci tudo. Tenho uma vida nova aqui em Lisboa. Mesmo que esta não seja a profissão dos meus sonhos.” Sobre o Euro’2004, torce o nariz: “Esses ‘hooligans’ que aí vêm não me atraem. Só vão trazer confusão.”

Correio da Manhã