junho 23, 2004

Flirt, Hal Hartley

Defendo que este filme é sobre cinema ou sobre como fazer cinema, ou ainda como chegar à verdade através do cinema. É, por isso e muito mais, o filme mais Godard de Hal Hartley. Não só pela utilização do cinema, da verdade, mas também por todo o estilo e, claro está, pela própria utilização de Hal Hartley. Não discordo, no entanto, que seja um filme sobre relações – e tudo o que elas envolvem – mas acho que a primeira imagem, a dos três história em três locais diferentes, a que vem na sinopse, distrai muita gente do sentido que interpreto do filme. Discordo, sim, que isso seja central.

Começo pelo momento que julgo mais fácil. Em Berlim, os trolhas a quem Dwight pede auxílio alongam-se no seu tempo de discurso. Perdem-se no que lhes é pedido e acabam por dizer que o realizador já falhou no seu objectivo. E falhou, de facto. A história não se repete, não pela situação e local serem diferentes, mas pelas sequências se terem deslocado sozinhas. Esta deslocação atrapalha o próprio rumo de Dwight. Dwight não tenta telefonar depois de sair do hospital – como Miho e Bill fazem -, vai antes a casa de Johann onde este não está, obviamente, à sua espera. E Dwight? Dwight acaba num flirt, noutro. Não procura Johann, mas outro. Aqui, claro, que se falam de relações; já vamos ao cinema.

Mas agora volto ao início. Nova Iorque serve de exemplo, onde tudo é normal. Tudo ocorre como previsto e há uma leitura à Godard bem como factos deslocados. Mas Nova Iorque é o padrão e tem ligações óbvias ao trabalho mais antigo de Hal Hartley. É um espelho sem reflexos.

Chegamos a Berlim e há uma transformação. Algo se torna mais europeu e, ao mesmo tempo, mais académico. Há um rigor estilístico que antes – Nova Iorque – era desleixado e já estava muito cansado. Surgem, como disse, as primeiras questões. As personagens intervêm no filme, controlam-no.

Tóquio. Tóquio é a mais subtil das três partes, a mais sóbria e a menos directa. A curta de Tóquio é dos momentos mais inspirados e poéticos de Hal Hartley. É, também, a maior em termos de duração – quase o dobro de cada uma das outras duas. Na terceira e última parte de Flirt vê-se tudo aquilo que nos havia sido ocultado antes. Vê-se tudo, portanto. Vê-se Hal Hartley a fazer de Hal e Miho Nikaido a interpretar Miho. Na realidade ambos são casados e Hal - no filme - é de, facto, um realizador em Tóquio que está a filmar algo chamado Flirt. Se há pouco escrevia sobre a procura da verdade no cinema neste filme, Tóquio prova-o. Se o realizador havia falhado em Berlim, aqui usa-se para nos mostrar não só os factos-padrão mas também os outros factos. Miho, na primeira cena, surge a interpretar um papel. Supõe-se que é actriz. De seguida vemos o acontecimento que leva à dúvida em todas as histórias. Lança-se a confusão e vemos Hal. E, neste preciso momento, Tóquio está onde Berlim e Nova Iorque começaram. E a partir daqui? Hal paga a sua dívida – os outros nunca o fizeram. As três mulheres – sempre três, também três rasgões no lábio – na prisão discutem após a pergunta de Miho e não argumentam, como os outros três em Nova Iorque ou os três em Berlim. Miho antes de se encontrar com Yuki no teatro encontra material de Hal Hartley. Supõe-se que Hal tentou apanhá-la no teatro, que sabia que ela tinha mais alguém. No entanto, não a conseguiu apanhar – mas isto revela confiança, amor. Miho dá um tiro nela própria – não o traído, mas sim o traidor - e no hospital imagina as cenas em vez de as relatar e nelas vemos outro homem que simplesmente não conhecemos – flirt. E Miho ao sair do hospital tenta ligar, mas vê Hal com o seu material – Flirt – na sala de espera. Senta-se a seu lado, envolve-se no seu braço. Fica.

E agora estou exactamente onde quero. Descrevi o desenrolar, o que muda nas três situações, mas não falei porque é que acho que é sobre cinema. O filme faz-se a ele próprio, ao longo das diferenças. É um ensaio sobre o tema – amor, traição, o que quiserem – mas através do cinema, não usando-o mas perfurando-o. O próprio estilo do realizador vai-se alterando – mais livre, lento – e a verdade corre livremente até si. É um filme que apura uma mudança no próprio estilo de Hal Hartley e nele, no próprio filme em si.

Por último, serei o único a reparar nos sons de estúdio nos créditos?