junho 23, 2004

8 ½ Women, Peter Greenaway

For example I would never use an over-shoulder shot in a two-way conversation and viewpoints are constructed from the ideal position of the camera not the eye-line or viewpoint of the character.

Peter Greenaway

The Pillow Book (1996), de Peter Greenaway, é um ritual quase obrigatório por quem um dia se aventura pelo cinema de autor na adolescência. É, também, dentro da obra do realizador, o filme que todos já viram, apesar de não conhecerem outro ou ignorarem na totalidade o restante trabalho. Descobri Greenaway com este filme, como muitos jovens da minha geração.

Curiosamente, é um dos filmes que menos dá de Greenaway. Há o sexo, a morte, o sexo e a morte, a maldade e a pintura (planos sobrepostos no regimento de Prospero´s Books) - esta só se nota nesses planos, ignorando a montagem teatral e estática, o jogo de sombras a irreversibilidade e mutação das cores. A narrativa é o elo mais fraco. Linear, simples, com a poética a sobrenvolver-se – mal - com a maldade. Quase sem estilo, pela vitória da narrativa, transforma-se num filme estranhamente encantador.

The Pillow Book não é uma grande obra. Convence, pelo lado errado, da dimensão de Greenaway. Durante dois anos subvalorizei 8 ½ Women, o filme seguinte e o mais recente que vi do realizador (1999), um dos últimos antes do megalómano projecto The Tulse Luper Suitcases. Durante dois anos o julguei menor, execrável, um mero exercício de estilo.

Existem duas realidades estilísticas completamente diferentes. Uma, na mansão, tanto no seu interior como no jardim. O movimento é menor, todo ele decorre normalmente, segundo as regras do jogo. A fotografia adapta-se ao pitoresco dos cenários e se no exterior recorda The Draughtsman´s Contract (incluindo a própria mansão), no interior evoca A Zed And Two Noughts pela associação a Vermeer (luz), por planos repetidos, pelos animais, pela lesão inicial de Beryl (Amanda Plummer) e pela meia-mulher. A outra envolve todo o espaço extra-mansão, Japão/casa de jogo/reunião/quarto de hotel/, cinema, hospital, etc. Lugares convencionais, retractados efémera e efusivamente com cores exageradas, situações extremas que consolidam o que de macabro ocorre na mansão. Este kitsch fortifica toda a materialidade do filme e torna mais presente o louco projecto dum pai e filho, inspirado no imaginário de 8 ½ de Fellini. Envolve, como o nome indica, oito mulheres e meia.

A normalidade real do filme encontra-se numa específica relação pai/filho: sexo. 8 ½ Women tem tanto de anormal como abordar sexo nessa relação, ou como um filho ter uma atracção pelo pai e não pela mãe. Anormal não, incomum. Mas não se está perante uma obra incomum no universo onde é concretizada, mas uma incomum orgia, ou uma devassidão irresoluta. É um filme sobre prazer – é fulcral o momento em que Emmenthal (John Standing) o revela a Palmira (Polly Walker) – e qualquer exercício de estilo é anulado quando se entende isto. É mordaz como Palmira manipula os desejos que flutuam na casa e como edifica uns e destrói outros. Mordaz, também, é a percepção de quais crescem e de quais caem, pois todo o desejo - o projecto - desencadeia-se em espiral.

Os quatro terramotos ao longo do filme desempenham um papel nuclear. Exceptuando o último, o único em Genebra, todos os outros ocorrem no Japão em planos estáticos e únicos. Mais uma vez aplica-se as “duas realidades estilísticas completamente diferentes”. O último, que encerra o filme, pode acabar – Greenaway não nos dá certezas – com a sobrevivência das últimas duas personagens. Giulietta (Manna Fujiwara) é apresentada – finalmente! – pouco antes da sua ocorrência e Storey (Matthew Delamere) anuncia com ironia o final do período oriental. O final – cómico e histérico – revela-nos ainda, durante o terramoto, sete chapas com números, cada um representando uma mulher. Sete para oito mulheres e meia. A chapa “um” tem no verso o “quatro” (lembrem-se das mulheres, é importante) – é a única com frente e verso, a única que pelo menos nos é mostrada – e não existe um “oito” mas um “oito e meia”. Este plano está montado como um quadro. Não seguimos as chapas pelo seu número, mas pelo seu movimento. Esse termina na “oito” e ao situarmos o número, lemos mental e rapidamente “oito” e “oito e meia”. E o filme termina.

Falei de The Pillow Book porque 8 ½ Women é a sua antítese e por ser muito mais “cinema”. Falei de The Pillow Book porque me é um filme ausente com o tempo e talvez não o queira esquecer. Falei ainda porque 8 ½ Women é igualmente menor na filmografia de Greenaway, mas pelas razões opostas.