junho 22, 2004

168 horas

O DVD pacificou o conceito de “série”. Restrinjo-me ao caso particular de Twin Peaks, transmitida semanalmente – na altura nos EUA e em Portugal, há pouco tempo numa reposição da SIC Radical -, que adquiri recentemente numa edição espanhola. A série de Lynch prima por finais pouco claros, lançando pistas que raramente se concretizam no início do episódio seguinte. O jogo do norte-americano, embora exaustivo, engana repetidamente o espectador, remetendo-o para a expectativa primitiva, calculo que, para alguns, de pânico. A semana de espera, ao invés de permitir uma digestão ligeira do último episódio acentuava uma indigestão desesperante em volta do que viria ou não a seguir.

Isto, é claro, prova-se com a maioria das séries, até nas que não têm seguimento directo. Ora, o DVD arruma o vício televisivo, ou parasítico, e oferece o consumo puro e duro aos olhos do espectador. Eu bem tento agendar um episódio por dia, mas ao fim dele, vejo mais um ou dois de seguida, limpando três semanas de desespero, ou três dias, em duas horas e um quarto.

Considero-me paciente, aguento sem barafustar na espera dos correios, autocarros, de pessoas, enfim, de qualquer coisa demorada ou que nos coloca numa situação de profundo aborrecimento. Não me queixo, acho normal até, e aproveito esses momentos para ler, descansar um pouco ou olhar em volta. Mas porque raio terei de me tentar forçar e limitar-me a um episódio por dia?

Ou seja, as séries em DVD, ajudam-nos a controlar as nossas expectativas. Vivemos rápido os momentos de sufoco que nos proporcionam, o medo e mesmo o mistério. De facto, controlamos todos esses aspectos e definimos não a hora a que a série começa mas até onde é que podemos ir.
O conceito de série televisiva morre lentamente e eu até gosto de ser um pouco responsável por isso.

2 Comments:

Anonymous Anónimo said...

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29 de junho de 2004 às 04:37  
Anonymous Anónimo said...

Este comentário foi removido por um gestor do blogue.

20 de setembro de 2004 às 22:56  

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